SQN 410

Assuntos relacionados à prefeitura da quadra

BRASÍLIA: Carnaval síntese

em Fevereiro 24, 2012
Por Aloísio Brandão,
jornalista, escritor e compositor.
E-mail: aloísio.brandao@ig.com.br

 

O fenômeno do resgate do Carnaval de rua, com suas Marchinhas antigas ou de produção recente, surpreendeu muita gente, neste ano. O Bola Preta (para ficar em apenas um exemplo), no Rio, arrastou cerca de duas milhões e 500 mil pessoas, por dia. Na Bahia, Minas, Pernambuco e, em outros Estados, não foi diferente.

O crescimento do velho e bom Carnaval de rua é uma notícia alvissareira a se comemorar. Ele é uma fortaleza contra o péssimo gosto de gororobas infectas (e impublicáveis, aqui) que descem ouvido abaixo da população por pressão de meia dúzia de “empresários” despudorados e desconectados com questões culturais e sociais. E mais: a rua volta a ser ocupada pelo povo em sua manifestação pura e desinteressada de festa e alegria.

No domingo e terça de Carnaval, em Brasília, eu me comovi, ao ver e brincar no Bloco infantil Tesourinha da Asa Norte. Centenas de crianças levadas por pais zelosos e amorosos lotaram o centro da Quadra 410 Norte, o endereço do Bloco. Dali, a meninada dirigiu-se à 209 Norte, fez a tesourinha (daí, o nome do Bloco) e retornou ao ponto de origem.

O percurso tem que ser pequeno mesmo para as frágeis pernas dos aprendizezinhos da folia. Ainda na SQN 410 e em todo o percurso, os pequenos brincaram a valer, em meio a outras centenas de adultos que descobriram na agremiação infantil uma pura e animada brincadeira.

O DIFERENCIAL – O Tesourinha da Asa Norte é marcado por um incrível diferencial: a música. Ela vem da Banda de Pífanos Ventuinha de Canudo. Composta de estudantes de Música e músicos já formados pela UnB (Universidade de Brasília) – muitos são professores de Música – a Ventuinha de Canudo é um luxo em sua inquietante e prazerosa busca por ritmos e culturas brasileiros.

Os competentes rapazes e moças da banda elaboraram um repertório instigante, composto exclusivamente de frevos, maracatus, caboclinhos, cirandas, sambas e marchinhas. Pífano, pífaro ou pife e tambores (havia, também, triângulos e pratos) são uma fusão eletrizante e formação tradicional no Nordeste.

Quando ouvi a Banda Ventuinha de Canudo, essa verdadeira usina produzindo milhões de megatons de energia humana e musical, eu tinha ao meu lado o observador atento Paulo Sá (Paulão), percussionista, que vaticinou: “Aloísio, este pode ser o futuro do Carnaval de Brasília: o de quadras”. Lembrei-me das animadas festas juninas de uma década para trás.

Mas, na SQN 410, os rufares dos tambores podem ter apontado, também, para a construção de um Carnaval síntese de Brasília, por trazer os mais diferentes gêneros culturais brasileiros (nordestinos, em especial), como o Caboclinho, o Maracatu, o Frevo; o Samba, o Choro, a Marchinha.

Dancei muito (aliás, a animação da música e da dança arrebatadoras não deixou ninguém parado) e comemorei, ao som da Ventuinha, a possibilidade de essa geração de foliõezinhos de fralda, daqui a uns 15 anos, se encharcar dessas culturas e dançar todos esses ritmos, nas ruas cercadas do mais belo verde desta Brasília igualmente síntese. Imagino quanta alegria teriam Darcy Ribeiro e Mário de Andrade, se vissem a Ventuinha de Canudo arrantando centenas de crianças dançando e cantando maracatus e caboclinhos por ruas da futurista Brasília.

Em meio à música e à brincadeira, encontrei-me com meus amigos Jorge Maia, jornalista, e Maria de Barros, cantora e professora de Canto (Escola de Música de Brasília). Estavam igualmente comovidos com os rumos apontados por aquele fenômeno cultural que a 410 Norte está gerando. Celinha Porto, cantora, e Rênio Quintas, pianista, não negavam o tanto que estavam, também, comovidos, ali. Reninho, filho do casal, ensaiou os primeiros passos de um Caboclinho, ali, diante de nós.

Aliás, diga-se de passagem, verdadeiras aulas improvisadas de Maracatu e Caboclinho eram ministradas por quem trazia esses ritmos na alma. E não é que muitos jovens brasilienses sabem dançar um e outro? Já as aulas de Frevo aconteciam sob a responsabilidade do genial e incansável Mestre Jorge Marino e Passistas de Brasília.

Agora, importa ressaltar o seguinte: o Bloco Tesourinha da Asa Norte foi criado, há três anos, por Renato Fino, clarinetista e empresário (é o proprietário do Caldos Finos, servidos em tendas, na própria 410 Norte, e do Senhoritas Café) e sua esposa, Semírames de Medeiros. Foi um presente pro Pedro, o filho.

A iniciativa conta com o apoio irrestrito da Prefeitura da 410 Norte. Conversei com o Prefeito da Quadra, Antônio Joaquim de Morais Filho, e vi o tamanho de sua alegria e determinação em ver a festa acontecer. Aliás, a Quadra é um referencial em organização. É um verdadeiro pólo cultural. À frente de sua sede, a Prefeitura da Quadra servia fartamente suco de caju para os pequenos (e grandes) foliões. A Quadra possui uma página na Internet, em que divulga os eventos culturais que realizada. O endereço www.sqn410.wordpress.com

Parabéns ao Renato Fino e Samíremes; ao Ventuinha de Canudo; à Prefeitura da SQN 410, ao Jorge Marinho e Passistas; E, em especial, à meninada, motivo de toda a festa. Que suas cabeças de meninos fiquem prenhas de música boa, de cultura brasileira.


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